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TPM entrevista Susie Orbach sobre a imagem irreal do corpo feminino

Cirurgias plásticas, Photoshop, marcas que produzem peças apenas até a numeração 42, propagandas, filmes... toda a nossa mídia e sociedade colabora para a exigência do "corpo perfeito", moldado quase nunca naturalmente, ora por meio de procedimentos cirúrgicos, ora por distúrbios alimentares, ora por anabolizantes.

A psicanalista Susie Orbach, conhecida mundialmente como grande pensadora da condição feminina, concedeu entrevista à Revista TPM e falou sobre a criação de uma imagem irreal do corpo feminino.

Achamos válido transcrevê-la na íntegra para incentivar essa reflexão.

TPM: Além da magreza excessiva, você acha que o aumento na taxa de obesidade também está relacionado à ideia da busca pelo corpo perfeito?
Susie Orbach: Sem dúvida alguma. O corpo perfeito atual, que é irreal, tem relação direta com a insatisfação maciça com o próprio corpo. Não se pode esquecer que quem come compulsivamente está lidando com ansiedade, então o descontrole com o que se come é uma resposta inconsciente à frustração de não conseguir atingir os corpos das revistas, que são inatingíveis.

Você acha que as campanhas publicitárias estimulam a exigência do corpo pefeito? 
Acredito que a publicidade, principalmente de roupas e cosméticos, ajuda a criar uma insegurança nas mulheres – que parecem não ter cílios compridos o suficiente ou peitos grandes o suficiente, por exemplo –, para que elas sempre queiram consumir mais.

A dieta também influencia nesse descontrole?
Totalmente. Não sei qual a relação no Brasil, mas na Inglaterra as marcas que vendem o pior tipo de comida, com conservantes e gordura trans, são as mesmas que vendem os produtos para dieta. Então, eles também lucram muito com essa ditadura do corpo, porque seus produtos se tornam cada vez mais necessários.

Como se livrar desse círculo vicioso?
Acho que as campanhas de conscientização são importantíssimas, assim como a educação que as mães passam para seus filhos, já que estamos vivendo uma cultura que se proliferou nos anos 70 e só agora os filhos dessa geração estão lidando com o problema. Acredito também que deveríamos processar as empresas alimentícias que vendem produtos de dieta enganosos e começar a pensar em regular as cirurgias plásticas. Isso é algo que me chamou muito a atenção quando estive no Brasil.

Você esteve no país há uma década e no ano passado. Em qual das vezes se assustou mais?
Nas duas. Achei os brasileiros cheios de energia e bonitos, mas o número de cirurgias plásticas impressiona e faz com que as pessoas acreditem que o corpo é algo a ser construído e não algo a ser lapidado naturalmente. Também acho bastante prejudicial a ideia de ter que parecer uma celebridade logo após ter filhos (e que seus filhos também precisam estar sempre bonitos e bem cuidados).

Na Inglaterra também existe essa pressão para se parecer com as celebridades?
A pressão é tamanha que, na minha experiência, o que percebi nos últimos 30 anos é que o comportamento, que antes era diagnosticado como um distúrbio, hoje é aceito como normal. É chocante. Antes as pessoas me procuravam porque sentiam que tinham um problema, relutavam em admitir e, por fim, queriam se curar. Atualmente, elas já chegam no consultório sabendo que têm um distúrbio e não têm intenção alguma de se curar. Querem apenas aprender a conviver com a doença.

Esses distúrbios repercutem além dos corpos das mulheres?
Claro que sim. Superficialmente, posso dizer que a ansiedade em relação à comida transformou as refeições familiares em um drama. O que era para ser um momento prazeroso, de troca, se tornou um momento ruim, de tensão. Já fiz diagnósticos de crianças de 3 anos que não estavam felizes com seus corpos.

O tratamento excessivo de imagens é um fator determinante nisso?
O Photoshop é uma ferramenta artística que poderia ser usada para milhares de coisas, mas é usada para um único fim: criar uma imagem irreal das mulheres. Essa cultura visual que surgiu a partir do Photoshop ajuda a perpetuar os distúrbios alimentares nas mulheres, porque se passou a ter um ideal de corpo que não existe no mundo real.

O que você diria para alguém que não usa tamanho 38 e não está feliz com seu corpo?
Diria para ela resgatar fotos antigas de si mesma. Sempre que olhamos fotos antigas, temos a sensação de que estávamos bonitas e felizes naquela época. Daqui a dez anos, ela vai se sentir assim em relação a hoje, então espero que ela consiga olhar as fotos e se sentir feliz consigo mesma agora, e não só daqui a dez anos.

E então, já pensaram sobre isso?

Fonte: Revista TPM
Foto: Divulgação

Um comentário:

  1. bem legal a entrevista , curti.

    http://anitamakingof.blogspot.com.br

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